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Falta humanidade no atendimento hospitalar bauruense

Postado no dia 3/abril/2009 em Comportamento, Generalidades, Sociedade por Gustavo Ferreira

Na madrugada da última quinta-feira, precisei de atendimento médico no pronto socorro, devido a problemas respiratórios aliados à uma gripe muito forte, era perto de 1h da manhã de quinta quando minha irmã, meu cunhado e eu chegamos no guichê para “sermos atendidos”.

26 minutos foi o tempo que a atendente levou para copiar meu nome e mais alguns dados do RG e perguntar o endereço da minha casa, enquanto eu quase desmaiava sem ar…

Depois do cadastro no sistema era a hora de esperar uma eternidade pela pré-consulta…

À minha volta havia pessoas com inúmeras dificuldades e doenças e para o pessoal do pronto-socorro aquilo não fazia nenhuma diferença, a dureza da saúde na cidade parece ter afetado seus corações, pois eles falam com você e não são capazes de olhar por um segundo pro seu rosto, muito menos olhar nos seus olhos.

Enquanto eu aguardava aquele tempo infindável, surgiu na porta a D. Maria Aparecida, motivo por eu escrever este post. D. Maria Aparecida é uma senhora de 54 anos, que mora em um bairro que eu nem sabia que existia em Bauru, tanto que eu nem consigo me lembrar do nome da região… Mas tudo bem, o que importa é o quanto D. Maria me chamou a ataenção.

Ela acompanhava o tic-tac do relógio andando de um lado pro outro chorando e gemendo de dor na barriga, esperando o auxílio médico, até que alguém a mandou se controlar pois “o médico que pode cuidar do problema da senhora só chega às 6h da manhã”…

Os ponteiros do relógio branco da sala de espera já marcavam mais de 2h da manhã e nada de pré-consulta, até que a auxiliar chamou meu nome no microfone… Aquilo me deu até um alívio, melhorando um pouco o bloqueio respiratório. Achei que já seria medicado, faria uma inalação, no máximo tomaria uma injeção e já iria pra casa pra descansar e enfrentar a longa quinta-feira que tinha pela frente… eu estava enganado.

A auxiliar queria me confrontar perguntando se eu não estava tomando remédio nenhum, como eu sabia que era uma crise de bronquite, e eu respondi: “me falta o ar, como de menino, quando fui diagnosticado, é a única explcação que tenho pra lhe dar, não sou médico…”, e foi então que ela mediu a minha pressão e escutou minha respiração. Disse que estava tudo bem, que o pior já tinha passado (já fazia mais de uma hora que eu estava lá) e que eu aguardasse o médico, que receitaria o que fosse necessário para minha melhora, e mal eu saí da sala ela gritou o nome do próximo paciente.

De repente essa auxiliar sai da sala como quem vai levar os prontuários ao médico e não retorna mais, e nesse intervalo mais pessoas começam a chegar… tempo depois, outra auxiliar toma seu posto e começa a chamar as pessoas (D. Maria Aparecida ainda não passou nem pela pré-consulta)…

Eis então que surge o médico, com a cara amassada como quem estava dormindo e vai para o consultório (todas as pessoas esperando e ele estava dormindo… pessoas poderiam ter morrido ali…) e inicia a chamada dos nomes. Em sua mesa uma pilha de prontuários esperando.
De paciente eu passei a ficar impaciente, não aguentava mais de dor nas costas e no pulmão. Tinha sono mas o sufocamento não me permitia dormir. Foi então que disse á minha irmã que se em 15 minutos não me chamassem nós iríamos embora, passando mal ou não, e meu nome é chamado no microfone.

Em uma consulta de menos de 2 minutos, o médico rabiscou no prontuário o nome de alguns remédios após ouvir mnha respiração e dizer que o meu problema ia passar rápido. Fui então aliviado para a sala de inalação, soro e injeção. Tudo certo comigo. À minha volta pessoas tomando soro, tirando sangue, dormindo estiradas no banco… e eis que ela surge… Dona Maria Aparecida, foi chamada para tomar soro com algum remédo para alviar sua dor. Quase chorei, fiquei emocionado ao ver a expressão de alívio daquela senhora quando o remédio começava a fazer algum efeito, a minha dor já não me importava muito, só havia o incômodo do sufocamento que me atrapalhava principalmente na fala.

Minutos se passaram e naquele ambiente o único som que se ouvia era o de ampolas sendo abertas, do inalador e as gotas de soro em cada um daqueles aparadores. de repente a enfermeira me disse que minha inalação havia acabado e que solicitou que eu desligasse o aparelho. Um leve silêncio tomou conta do ambiente. Tomei minha injeção, agradeci e abri a porta.

Eu estava muito fraco e com tontura, saí daquela sala meio desnorteado, tateando, procurando os braços da minha irmã, e não consegui nem trocar algumas palavras com a dona Maria Aparecida… uma pena, espero que ela esteja bem e que tenha melhorado de suas dores.

Mas este meu post é um protesto contra a calamidade da saúde pública nesta cidade e um protesto ao sofrimento pelo qual nós cidadãos como a dona Maria Aparecida e eu temos que passar devido o descaso destes “profissionais”.

Acho que me alonguei demais no texto… mas a ocasião pedia um relato detalhado.

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13 Comentários para 'Falta humanidade no atendimento hospitalar bauruense'

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  1. Mari disse,

    em 3/abril/2009 às 12:02

    Oi … acabei de ler seu post, ultimamente a saudde publica anda assim msm, nao é so ai nao e em todo os lugares,os medicos sao medicos apenas pelo dinheiro sao poucos os profissionais capacitados para fazer esse trabalho tao lindo de salvar vidas, que hoje em dia esta perdendo seu valor!
    bjs!


  2. em 3/abril/2009 às 18:02

    Quero deixar meu comentário, pois faço parte dessa “força-tarefa” tão necessária para a sociedade como um todo. Tenho realizado treinamentos em humanização na saúde em várias cidades do interior paulista, inclusive organizando conferências municipais de saúde e palestras vivencias dentro do mesmo tema. Tenho notado que os gestores de saúde estão meio perdidos na burocracia e no excesso de regras-conceitos-teorias-política-normas… deixando de lado a aplicação (real e concreta) dos preceitos de humanização na saúde. Posso dizer que existem experiências práticas maravilhosas e muita coisa boa está sendo feita em várias cidades. Mas, para melhorar o desempenho dos trabalhadores, principalmente no caso da humanização na saúde, é preciso treinar e capacitar vivencialmente. Quem quiser conhecer mais, entre nos blogs http://www.humanizabrasil.org.br e http://www.reginaldotech.com.br. Obrigado.

  3. Paulo Milreu disse,

    em 3/abril/2009 às 19:01

    Atualmente estou passando por uma situação bem parecida, com um familiar na UTI há 10 dias, em Londrina/PR. Tenho encontrado uma grande maioria de profissionais da saúde muito humanos, mas me deparei com alguns que esqueceram a humanidade.

    Mas descobri que mesmo com profissionais humanos há um outro problema: comunicação e atenção aos familiares. O serviço social fica esperando sentado em vez de agir.

    Vou comentar isso num post depois que tudo isso acabar.


  4. em 3/abril/2009 às 19:11

    Oi Mari,
    Realmente fica difícil contarmos com esses profissonais.
    Sei que não é algo generalizado, mas essa experiência foi marcante e sei que ela se repete diariamente com inúmeras pessoas, como a D. Maria Aparecida e eu.
    O pouco do que posso fazer é no mínimo demosntrar minha indignação por meio das ferramentas que tenho, no caso, o BauruBlog é uma delas.
    Espero que esteja sempre nos acompanhando e interagindo aqui.
    Beijos
    Gustavo Ferreira


  5. em 3/abril/2009 às 19:15

    Como eu disse na resposta à Mari, sei que não é generalizado, não podemos jogar este fardo em cima de toda a classe médica, porém o problema da comunicação sim, é generalizado nas instituições de saúde: médicos, enferemeiras, auxiliares, serviço social…

    E nós que somos da área de comunicação notamos nitidamente essa dificuldade de gestão da informação nesses locais.

    Tenho certeza que será um ótimo post informativo derivado desta sua experiência em Londrina.

    Abraços,
    Gustavo Ferreira


  6. em 3/abril/2009 às 19:17

    Está aí a dica do Reginaldo pessoal do pronto-socorro central e demais unidades de saúde de Bauru…

    Vamos fazer algo pela saúde do povo bauruense.

  7. Cristina disse,

    em 5/abril/2009 às 16:41

    Olá. Perante este post, realmente concordo com você Gustavo, que a saúde já não é mais como antigamente.
    Hoje muitos profissionais se formam na ilusão de garanharem salários melhores e de terem uma profissão a seguir.
    Mas creio que muitos se esquecem que para se trabalhar na área de saúde, há critérios e riscos que ocorrem. Um dos critérios é que devemos a amar nosso próximo como a nós mesmo, mas como exercer o amor pelo próximo se muitos não amam a si mesmo, mas só apenas o dinheiro ou o status que a profissão os dá?
    Como zelar por uma vida se eles mesmo não conseguem zelar pela vida deles?
    Muito dizem que a culpa é do governo ou do administradores dos hospitais ou do financeiro, mas a culpa é de todos. os que calam-se ou fecham os olhos para que tudo pareça estar bem.
    Que culpa tem os pacientes do governo ou o hospital não pagar um salário digno ou de atrasarem os salários do funcionários? Nenhuma, pelo contrário, creio que a maioria devem pagar impostos nesta cidade ou em qualquer outra, para se terem pelo menos um atendimento digno e humanizado.
    Aí pergunto: Qual a minha recompensa se me formo em uma profissão em que eu não trabalho com amor e com o coração? Do que adianta um diploma ou certificado se eu não honro com minha profissão? Esperam reconhecimento de homens ou de Deus?
    Esperam serem profissionais bem sucedidos, mas não buscam meios corretos para serem reconhecidos, não amam a profissão ou o cargo que exercem, parece que fazem tudo por obrigação, saibam que ninguém é obrigado a nada, se alguém não está satisfeito com o que exercem, por favor procurem uma nova profissão.
    A recompensa maior não vem de homens, mas sim de Deus, humildade acima de tudo não somos melhores do que ninguém, muito menos se temos ou não diplomas/certificados. o que nos difere uns dos outros são apenas as características individuais que Deus nos deu antes mesmo de nascermos, mas Ele nos ama por igual.
    Este é meu desabafo pelo maior problema de todos os tempos… A Saúde!!


  8. em 7/abril/2009 às 0:33

    Concordo com você Cristina quando diz que o problema parte também da falta de amor dos profissionais atuais á profissão, ao que escolheran para seus futuros e principalmente a falta de amor próprio quando vendem sua formação pela esperança gananciosa de salários altos e luxuosos para dar status.
    Se os homens pensassem mais na simplicidade da vida e do relacionamento humano, estariam mais próximos dessa premissa de amar ao próximo como a si mesmo e tudo seria melhor!
    Muito obrigado por seu desabafo aqui conosco.
    Continue acompanhando o BauruBlog, pois estamos aqui para falar de tudo o que acontece em nossa cidade, inclusive para defender os direitos dos cidadãos.
    Grande abraço,
    Gustavo Ferreira


  9. em 7/abril/2009 às 10:42

    Outra vez estou aqui! É preciso comentar que o Sistema Único de Saúde, o SUS é, talvez, o maior sistema de saúde do mundo… e talvez também o melhor sistema de saúde do mundo. Explico: toda a estrutura, a organização, a política, as bases, os programas e os prjetos do SUS são extremamente interessantes. Porém… e aí vai toda a indignação que temos diantes de muitos fatos iguais aos ralatados a partir do post do Gustavo Ferreira, a prática, o uso, a realização… enfim, a realidade “concreta” (aí vale o pleonasmo)… não acompanham a teoria. O Ministérios da Saúde direciona bem, mas muitas prefeituras, muitas secretarias de saúde, muitos trabalhadores, muitos gestores, muitos médicos “não fazem o dever de casa”. Portanto, é preciso perceber-se que: 1. é preciso treinar e capacitar todo esse pessoal em humanização e acolhimento; 2. humanização e acolhimento não são teorias de Universidade e nem um monte de burocracia de reuniões, conselhos, congressos e coisas do tipo; 3. humanização e acolhimento não é apenas sorrir e dizer bom dia; e 4. é preciso ter ousadia e rapidez nas decisões e na reorganização de cada núcleo, PSF, hospital, clínica, posto… e por aí vai. Como se vê, “o buraco é mais embaixo… mas é mais em cima também”. A Humaniza Brasil tem a missão de trazer tudo isso à tona e trazer soluções. Além dos treinamentos e das palestras (ver em http://www.humanizabrasil.org.br e http://www.reginaldotech.com.br), estamos organizando uma atuação concreta nessa realidade. Vem com a gente?


  10. em 9/dezembro/2009 às 22:37

    Olá Gustavo!
    Concordo com você, a situação de Bauru na Saúde está ridícula! E ainda pra ajudar vem as denúncias contra parte da diretoria do AHB.
    Estou ciente que você criou esse posto há um bom tempo, porém tinha de comentar sobre o que li.
    Uma das lutas que Bauru TEM que vencer o mais rapidamente possível é a luta contra o câncer que assola o sistema de saúde na cidade.
    Porém tem um comentário que você fez que eu discordo.
    O fato do médico ter chegado com a cara amassada é até um BOM indicativo, ao menos ele cumpre os horários que ele tem de fazer, afinal, ele não pode atender fora do horário que lhe é posto nos hospitais.
    A culpa está muito mais no fato da diretoria que não pois um médico no plantão noturno.

    Achei o post muito informativo, mesmo.
    Ótimo post.

    Marinno Arthur


  11. em 10/dezembro/2009 às 9:10

    Oi Marrino,
    Talvez não tenha ficado muito claro o que eu quis dizer com o fato dele estar dormindo. Me incomodou sim, porque as pessoas estavam precisando… Sei que ele é um ser humano e precisa descansar devido ao grande número de horas seguidas que trabalha. Mas a indignação acaba se juntando ao fato justamnete de não ter médicos o suficiente e poucos deles terem que se desdobrar para atender a demanda. Se houvesse mais médicos ele poderia estar descansando normalmente nesse horário e mesmo assim os pacientes seriam atendidos e não ficariam sofrendo, pois outro médico estaria de plantão.
    Que bom qu egostou do post!
    Obrigado pela participação!
    Abraço,

  12. Tanya disse,

    em 15/dezembro/2009 às 3:05

    “Toda generalização é preconceituosa.” É fácil culpar os médicos pelo caos na Saúde Pública, Gustavo. São os profissionais mais “atingíveis” para se execrar.


  13. em 15/dezembro/2009 às 10:51

    Tanya, concordo plenamente com essa afirmação. E disse ainda esta semana sobre outros problemas da cidade… Em nenhum momento meu intuito foi generalizar e culpar os médicos todos como expliquei ao Marinno Arthur em comentários anteriores…
    Espero que não tenha ficado ofendida.
    Acompanho de perto o trabalho de alguns médicos e sei o quanto é difícil o seu trabalho e que muitos dos problemas pelos quais passam eles não tem nenhuma possibilidade de ajudar a resolver, pois o problema está na rede de saúde e não em seu atendimento…
    Até breve!

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