Olhos Anônimos
Pontuais. Ás quatro da tarde eles se encontram no coração da cidade para mais uma visita. Uma visita que parece mais alegrar os que vão do que os que são visitados. Com travessas de bolo e garrafas que transbordam o chocolate quente, aquelas senhoras, rapazes, moças e adolescentes se encaminham domingo sim domingo não para o Lar dos Desamparados, na rodovia Marechal Rondon, no limite do município de Bauru, interior de São Paulo.
Deixam suas famílias, seus domingos no parque, seus programas vespertinos para doarem um pouco de si àqueles que há muito perderam seus domingos, seus sábados, suas quartas. Não há mais diferença entre os dias da semana, afinal tudo parece sempre igual para aqueles tantos homens que vivem no espaço. Entre o verde do local, o vento da subida, a horta sempre viva e os cães que fazem companhia eles passam seus dias. Pouca família e muita história.
As 15 pessoas, mais ou menos, depende da semana, adentram o dormitório coletivo e mais adiante a ala dos convalecentes.
- A turma do barulho chegou, gritam animados.
Olhos anônimos e esquecidos levantam do cobertor poído. Alguns reconhecem a turma e logo se agitam, vindo ao encontro. Outros não se dão ao ruído e continuam, impassíveis, imóveis à movimentação. E há aqueles que não podem se mover, pois já não têm braços, pernas ou lucidez suficiente para coordenar os movimentos.
Um pouquinho de cada um vai ficando entre eles. E muito deles vai ficando entre nós. Uma conversa, um sorriso, um aperto de mão. É tudo o que eles precisam para ter um dia mais ensolarado, mais quente. A maioria deles foi abandonada ou abandonou a família. Os que têm algum tipo de renda, provavelmente a aposentadoria, são alojados em suítes, umas ao lado das outras num prédio separado. Ali têm um cantinho de sua vida com pôsteres, TVs – quase sempre transmitindo o jogo de futebol da rodada do domingo -, suas camas, seus pertences. O que lhes restou de uma vida lá de fora.
Muita história vive naqueles quartos solitários e únicos. Passando rapidamente pelo corredor sentimos, cheiramos, ouvimos e vemos as vidas continuando. Um emaranhado sinestésico que espanta até os mais céticos. De um quarto ouvimos um som alto. Elvis Presley anima aquela instalação. Batemos na porta e oferecemos um chocolate quente, mas não temos receptividade. O senhor não quer ser interrompido e diz que prefere curtir seu som. Mas uma das visitantes, uma pequena jovem se anima ao ouvir o som do ídolo e brada:
- Ei, o senhor está ouvindo Elvis!
Pronto, o dia está ganho. Na casualidade do encontro se fez uma aliança pautada no gosto comum de ambos. O senhor abriu a porta, mostrou sua coleção de discos de vinil do Rei do Rock e, juntos, conversaram animados, falando mais alto que o cantor, que insistia em cantar, embalando a sonora conversa.
Mais para frente, sentados ao pé de uma escadaria, ouvíamos o relato de outro morador do Lar contando sua experiência com as árvores e plantas na terra do sol nascente. Do outro lado do mundo, no Japão, tentando talvez encontrar a si mesmo, ele trabalhou com árvores. E hoje, com toda a sua experiência internacional, cuida delas ali em sua morada. Questionado sobre a sua família ele é enfático:
- A minha família sou eu e Deus.
Gaúcho forte e saudável, conhecedor das árvores.
E assim são eles, que enfeitam o nosso dia e nos fazem aprender a valorizar o muito que temos. Eles, que têm tão pouco, nos ensinam a amar o singelo. Ou seja, a vida!
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O Lar dos Desamparados de Bauru é uma organização que acolhe homens, sem família, em sua maioria com mais de 60 anos. Fica no quilômetro 15 da Rodovia Marechal Rondon, sentido Agudos, e é qualificado como uma instituição de utilidade pública e, dessa forma, recebe verbas do governo do Estado de São Paulo. Mesmo assim, recebe doações em dinheiro, roupas, remédios e carinho, muito carinho!
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em 4/dezembro/2008 às 15:22
espero ler mais textos seus por aqui!beijos
em 5/dezembro/2008 às 12:44
oi tia Glau!!!!
achei linda a matéria, fiquei arrepiado só de ler, tomara q publiquem mais textos seus.
bjs bjs bjs
Ass:Rogerinho
em 5/dezembro/2008 às 12:58
Olá Glauciana………….
Fiquei muito feliz e emocionada em ler o texto,me recordo de quando fiz a Universidade Aberta a Terceira Idade.Que fizemos um trabalho no asilo São Vicente de Paulo e que há vários moradores abandonados por suas famílias, através da diretora de lá conseguimos o endereço de suas respectivas famílias e mandamos cartas convites para uma festa com os seus parentes que lá estavam.Esta festa foi realizada com grande sucesso, e a maioria das famílias compareceram.
Eu gostei muito de seu texto porque ele relata a experiencia de vida de cada um.
Bjs e abraços de sua madrinha q te ama muito.
Ass:Pop Madrinha
em 5/dezembro/2008 às 12:59
Olá Glauciana………….
Fiquei muito feliz e emocionada em ler o texto,me recordo de quando fiz a Universidade Aberta a Terceira Idade.Que fizemos um trabalho no asilo São Vicente de Paulo e que há vários moradores abandonados por suas famílias, através da diretora de lá conseguimos o endereço de suas respectivas famílias e mandamos cartas convites para uma festa com os seus parentes que lá estavam.Esta festa foi realizada com grande sucesso, e a maioria das famílias compareceram.
Eu gostei muito de seu texto porque ele relata a experiencia de vida de cada um.
Bjs e abraços de sua madrinha q te ama muito.
Ass:Pop Madrinha e Rogerinho
em 6/dezembro/2008 às 14:53
[...] Alfredo Bigarelli Junior em Eu esperava mais do Saint Paul ResidenceMadrinha e Rogerinho em Olhos AnônimosMadrinha em Olhos AnônimosRogerinho em Olhos AnônimosBruno Pola em Esconderijos conectadosBia [...]
em 6/julho/2009 às 21:17
Aamados , gostaria de sabwer se está internado umsenhor chamado José Ponton, ele estava internado aqui no hospital perto de casa, fui cortar seu cabelo, e minha irmã fazia sua barba, criamos um vínculo de amor muito grande por ele, o hospital disse que estava procurando um asilo pra ele, só que não esperávamos que ele fosse pra tão longe, e agora precisamos saber dele, alguém pode me dar notícias? Estamos sentindo muito sua falta, queremos ele perto de nós. Obrigado, espero notícias o mais rápido possível. Que Deus os abençõe.
em 16/julho/2009 às 15:58
Sonia, eu não tenho a informação de que esse senhor esteja internado lá, apesar de ter feito várias visitas aos internos do Lar dos Desamparados. De qualquer forma, você pode checar isso indo até o Lar. Nos finais de semana e em qualquer outro dia da semana a entrada é liberada, gratuita e os velhinhos ficam muito felizes. Mesmo que talvez o Sr. José não esteja lá, certamente a sua visita vai agradar o dia de qualquer outro velhinho. Um grande abraço!
em 15/maio/2010 às 15:28
Gostaria de saber da Dna. conceicao e o sr durval,pois em meados de 70, foi interno , do lar e gostaria muito de saber deles….grato josias.